No centenário de Antonio Candido, três livros homenageiam sua obra

Autor foi um dos principais críticos literários do Brasil e autor do projeto do 'Suplemento Literário' do 'Estado'

22/12/2018

Em O Estado de S. Paulo

Por Wilson Alves-Bezerra

Organizado pelo crítico uruguaio Pablo Rocca, Conversa Cortada traz a público mais de 20 anos de correspondência entre Candido e o uruguaio Ángel Rama (1923-1983). Tais cartas são reveladoras em muitos sentidos: elas mostram uma amizade intelectual e produtiva entre dois professores que tinham o “espírito da resenha” e a ambição de permitir que as literaturas das duas bandas das América Latina fossem melhor conhecidas na outra. Assim, desde o dia em que se conheceram, em 1960, até a morte trágica de Rama em um acidente de avião, em 1983, trocaram cartas compartilhando projetos de publicação mútua. Havia ainda algo maior, formulado por Rama em 1973: “Reescrever a história da literatura latino-americana, isso que nunca se fez e que nós estamos obrigados a fazer” (p. 80). Uma das manifestações deste projeto foi a Biblioteca Ayacucho, concebida por ele em Caracas – onde estava exilado durante a ditadura uruguaia – e que buscava reunir, nas palavras do próprio, “aproximadamente uns 300 volumes onde queremos selecionar os mais importantes autores e obras, na literatura, no pensamento e na história, de nossa América (a espanhola, a portuguesa e a francesa), desde suas origens até hoje”. Candido se ocupou da seleção dos autores brasileiros e da indicação de possíveis responsáveis por prólogos, seleção e notas entre os críticos do Brasil. Acompanhar o diálogo entre os dois sobre a produção da coleção é um dos pontos altos do livro.

O outro é nos depararmos com os obstáculos enfrentados por ambos no contexto da perseguição política da época: moviam-se entre as brechas das ditaduras. A certa altura, em 13 de outubro de 1973, Candido fala da publicação inaugural da revista Argumento, da qual era membro do corpo editorial e colaborador: “A revista saiu no dia 2, com 25.000 exemplares e se esgotou quase imediatamente. A polícia apreendeu exemplares em diversos lugares, mas ainda não sei em que proporção”. A revista resistiu apenas por quatro edições. Rama, por sua vez, precisou abandonar seu Uruguai natal e exilar-se na Venezuela, e depois se mudar para os EUA, de onde foi forçado a sair, já sob o governo de Reagan, por suas ideias socialistas. A correspondência, como diz o sugestivo título, é entrecortada: cartas se perdem, projetos atrasam, pois sustentar um pensamento humanista em tempos bárbaros é sempre um desafio sem par. Não são poucos os exemplos de obstáculos ao fluxo de ideias, cartas, livros e pessoas no mundo da Guerra Fria. A resiliência humanista dos dois escritores é lição para nossos tempos.

[…]

Leia o texto original na íntegra no ESTADÃO

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