O naturalista que pintou os peixes

Aquarelas do século 19 registraram ictiofauna brasileira coletada na expedição do anti-darwinista Agassiz

01/05/2019

Em Quatro Cinco Um

Por Maria Isabel Landim

Nos anos 1940, chegou para George Myers, ictiólogo da Universidade de Stanford, um pacote de aquarelas de peixes brasileiros. Vinha acompanhado por um bilhete do diretor do Museu de Zoologia Comparada de Harvard, dizendo que aqueles papéis talvez servissem para acender o fogo no inverno. Em 2019, a frase remete às chamas que destroem nossos patrimônios naturais e culturais.

Os eventos por trás desse material produzido entre 1865 e 1866 atravessam a história de nosso país e da ciência. Uma intrincada rede de relações enriquece o sentido e valor simbólico de Peixes do Brasil, edição bilíngue organizada por Heraldo Antonio Britski e José Lima Figueiredo, que reúne uma seleção de aquarelas e desenhos produzidos pelo suíço Jacques Burkhardt (1808-67) durante e depois de sua vinda ao Brasil.

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Missão no Brasil

Um dos grandes naturalistas do século 19, o também suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-73), viu-se ligado ao Brasil desde cedo, quando, já em 1826, foi convidado pelo pesquisador Carl Friedrich Philipp von Martius para ir a Munique completar os estudos sobre peixes brasileiros iniciados pelo zoólogo Johann Baptist Spix, morto precocemente.

Martius e Spix participaram da missão austríaca por ocasião da vinda da princesa Maria Leopoldina ao Brasil (para casar-se com d. Pedro I), entre 1817 e 20. O contato remoto com nossa ictiofauna rendeu a Agassiz uma publicação em coautoria com Spix, além do desejo de conhecer os trópicos.

Ao emigrar para os Estados Unidos em 1846, o naturalista levou consigo alguns colaboradores, entre eles seu amigo Jacques Burkhardt. Lá, fundou o Museu de Zoologia Comparada, dentro da Universidade de Harvard. Também é importante mencionar que Agassiz foi um dos mais influentes anti-evolucionistas (ou anti-darwinistas) de seu tempo, o que mesmo na época chegou a comprometer sua credibilidade como cientista.

Finalmente, na década de 1860, durante uma crise de estafa, Agassiz aceitou o convite de d. Pedro 2o para realizar pesquisas no Brasil, especialmente na Amazônia. Mais uma vez, convidou o amigo desenhista para a empreitada. Ainda o acompanharam sua segunda esposa Elizabeth — com quem escreveu o diário transformado em livro, A Journey in Brazil — e o filósofo William James, na época um médico recém-formado.

A expedição Thayer foi incomum tanto pelo patrocínio privado quanto pela visão um tanto controversa de Agassiz. O naturalista desejava realizar uma coleta minuciosa, com dados suficientemente precisos sobre as localidades de cada captura, de forma a permitir o estudo detalhado da distribuição dos peixes pelas bacias hidrográficas brasileiras — as coletas anteriores pecavam pela inexatidão. Esse estudo, segundo ele, possibilitaria questionar a teoria de Charles Darwin.

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Fracassos e sucessos

A missão anti-evolucionista de Agassiz estava fadada ao fracasso, mas sua ambição resultou na maior coleção de peixes brasileiros coligida no século 19. O volume de material que foi depositado em Harvard é impressionante: cerca de 80 mil exemplares, sendo a maioria de peixes.

O trabalho de Burkhardt ficou inacabado, interrompido por sua morte poucos meses depois do retorno aos eua. As aquarelas, junto aos espécimes e aos documentos da expedição Thayer, assim como o diário do casal Agassiz, são um acervo de extremo valor. Entretanto, esse material que alimentaria a carreira de gerações de ictiólogos não recebeu, muitas vezes, a merecida atenção. O que aconteceu com ele depois do envio para a Califórnia é nebuloso. Sabemos apenas que retornou a Harvard de forma misteriosa muitos anos depois.

É com alegria, portanto, que recebemos Peixes do Brasil: Aquarelas de Jacques Burkhardt 1865-1866, organizado por dois respeitados pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Trata-se de um minucioso resgate dos documentos pictóricos que registraram, sob o olhar de viajantes, um momento rico de nossa história e biodiversidade. O projeto foi produzido com o tempo necessário para dele se extraírem sabor e informações precisas. Um grande número de especialistas foi consultado para diminuir a chama do esquecimento e lançar luz sobre esse trabalho tão precioso.

Todas as imagens estão identificadas e, sempre que possível, as espécies também. As informações inseridas por outros membros da expedição foram apontadas e transcritas, trazendo seus nomes ao nosso conhecimento. Britski e Lima revelam ainda que os trabalhos voltaram ao acervo do museu em menor número. Ficamos sabendo, também, como as pranchas chegaram aos pesquisadores brasileiros e que hoje estão digitalizadas e acessíveis para consultas virtuais.

Finalmente, a obra é uma contribuição inestimável para a compreensão da gênese e do desenvolvimento dos museus de história natural. São eles, afinal, nossos repositórios últimos de um valoroso legado de gerações de naturalistas, pesquisadores, artistas e outros colaboradores. Essa herança é o que possibilita vivermos em um mundo onde a racionalidade nos permite compreender melhor nosso passado e os processos naturais que observamos no presente.

Leia o texto original na íntegra na Quatro Cinco Um

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