Livro de doutor em história revela que Plínio Salgado espionou para a Alemanha de Hitler

“Plínio Salgado se via como um líder fascista exilado e estava mais do que disposto a se articular com o Eixo para garantir sua posição de líder nacional”, diz João Fábio Bertonha

14/07/2019

Em Jornal Opção

Por Euler de França Belém

O austríaco Adolf Hitler se tornou chanceler da Alemanha em 1933 — de maneira democrática, sem golpe — com o apoio da direita e de setores de centro. Logo depois, passou a promover expurgos, perseguindo comunistas e democratas. Os judeus começaram a ser massacrados desde o início (ainda não era a Solução Final). O regime forte dos germânicos agradou parcela das elites políticas, militares e intelectuais patropis. Integrantes do governo de Getúlio Vargas, como Eurico Gaspar Dutra e Goes Monteiro, eram simpáticos ao nazismo. O próprio Getúlio, ainda que mais esquivo e mantendo antinazistas ao seu lado, como Oswaldo Aranha (pró-americano), era simpático às ideias de Benito Mussolini, o fascista italiano, e de Hitler. Em 1937, por meio de um golpe, criou um regime autoritário e, até, totalitário — conhecido como Estado Novo (1937-1945). O sistema gerado pelos brasileiros era mais próximo, inclusive do ponto de vista constitucional, do alemão e do italiano do que dos Estados Unidos, da França e da Inglaterra, democracias plenas.

O Estado Novo expurgou a esquerda comunista e a direita integralista da mesma maneira. O escritor (modernista), jornalista e político Plínio Salgado, depois de um golpe malsucedido, em 1938, acabou sendo exilado. Sua história tem sido contada, quase sempre do ponto de vista político e literário, mas o doutor em história João Fábio Bertonha decidiu analisar também o indivíduo no livro Plínio Salgado — Biografia Política: 1895-1975 (Edusp, 401 páginas). Trata-se de um desses trabalhos que a universidade produz de melhor: rigoroso, documentado, bem escrito (é uma tese de livre docência apresentada na USP). Não se trata de obra “isenta” — até porque isenção é um mito de pés de barro —, mas é nuançada, distanciada. O autor usa os fatos para “julgar” o sujeito, o agente, mas também para compreendê-lo, estendendo, obviamente, a compreensão ao seu tempo. Plínio Salgado não é tratado como santo nem como demônio.

O historiador sugere que Plínio Salgado tomou a iniciativa de encontrar Erich Schroeder, pois “queria retomar o contato com Berlim que ele já havia tido, ainda que de forma intermitente, desde os anos de 1930. Com a aprovação do SD, o próprio Schellenberg foi a Lisboa, no início de 1942, falar com ele”. Os dois lados decidiram cooperar. “Um oficial da SD, Adolf Nassenstein, foi nomeado para servir de ligação, recebendo relatórios sobre o Brasil que eram escritos por Salgado (o “agente x”), que utilizava, para isso, informações que lhe eram enviadas por seus representantes no Brasil. Em troca, o SD prometia apoio a Plínio Salgado no caso de uma reviravolta na situação do Brasil e ajuda financeira para sustentar o integralismo no país. Salgado, nessa reunião, auspiciou estreitos contatos entre a SS e a AIB”, anota João Fábio Bertonha. O “agente x” era tanto Plínio Salgado quanto Hermes Lins.

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João Fábio Bertonha detecta que Plínio Salgado também pode ter mantido ligação com a Alemanha nazista via Argentina. O representante da SD na Argentina, Siegfried Becker, “teria se encontrado com” o escritor e Hermes Lins de Albuquerque em Portugal.

O historiador sublinha que uma coisa deve ser vista como consolidada: “Plínio Salgado, em 1941-1942, ainda se via como um líder fascista exilado e estava mais do que disposto a se articular com o Eixo para garantir sua posição de líder nacional”. João Fábio Bertonha acrescenta que, em Lisboa, a “rede de contatos” do escritor “estava centrada na extrema direita, fascista ou não fascista, portuguesa”.

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