O cotidiano como patrimônio em moradias sociais

Flávia Brito do Nascimento, em obra recém-lançada pela Edusp, analisa as dimensões patrimoniais, materiais e memoriais dos conjuntos residenciais de operários em São Paulo

Em Edusp

Por Divulgação

31/07/2025

O livro “Cotidiano Conjunto: Domesticidade e Patrimonialização da Habitação Social Moderna” incorpora pesquisas que a professora Flávia Brito do Nascimento desenvolveu ao longo de sua carreira acadêmica, incluindo seu mestrado, doutorado e pós-doutorado. Nesses trabalhos, a pesquisadora estudou a história da habitação social no Brasil e o processo de patrimonialização dos conjuntos habitacionais brasileiros.

A autora baseou a pesquisa para o livro em quatro tópicos centrais, levantados em seus estudos anteriores: as questões de gênero, a domesticidade como questão de Estado, a atuação dos moradores e a perspectiva patrimonial internacional. A obra se aprofunda nesses pontos, focando temas como o papel da mulher operária no espaço doméstico e a reavaliação do que é considerado patrimônio.

Nesta entrevista concedida à Edusp, Flávia Brito do Nascimento relata o processo multifacetado de sua pesquisa, destacando as diversas fontes que buscou para estudar a dimensão cotidiana e doméstica de conjuntos residenciais que existem até hoje na região metropolitana de São Paulo.

Como foi o processo de pesquisa para escrever “Cotidiano Conjunto”?

Flávia Brito do Nascimento: O processo de pesquisa foi longo. O livro é resultado de várias pesquisas que fiz ao longo de muitos anos, impulsionadas durante meu pós-doutorado, que realizei com apoio da Fapesp na França, em 2019. No meu mestrado, estudei o Departamento de Habitação Popular, uma experiência de provimento de conjuntos habitacionais modernos no município do Rio de Janeiro nas décadas de 1940 e 1950. A iniciativa foi desenvolvida por um grupo de arquitetos modernos liderados pela Carmen Portinho, que foi uma engenheira, urbanista e personalidade feminista muito importante no Brasil. Já no doutorado, a pesquisa focou a questão da preservação e o processo de patrimonialização dos conjuntos habitacionais brasileiros. Quando terminei essas pesquisas, havia algumas questões-chave indicadas no material documental que eu queria aprofundar. A primeira delas é a forma como as pessoas que moravam nos conjuntos habitacionais se relacionaram com esses espaços. Eles são projetos de moradia construídos pelo Estado brasileiro durante o período do que a gente chamaria de bem-estar social, que nunca foi completado no Brasil. Apesar de termos pesquisado muito esses conjuntos, eu queria ter a oportunidade de conversar com as pessoas que moraram lá. Outro questionamento era a própria questão de gênero e das mulheres. Eu ainda não tinha investigado necessariamente o papel feminino na moradia social. E, enfim, uma questão importante dessa pesquisa se refere aos países centrais, como a França. As políticas de patrimônio no Brasil foram muito espelhadas nas francesas, assim como aconteceu em todo o Ocidente, e eu queria entender como esse processo de patrimonialização se deu na França e como o Estado francês tratou o problema da moradia popular. O meu processo envolveu recuperar essas pesquisas anteriores, reler o material de outras formas, com outras referências bibliográficas, e acrescentar novas pesquisas. Foi um trabalho extenso, multifacetado, que tentou responder coisas que ainda não estavam respondidas nas pesquisas anteriores sobre a história da moradia, também colocando questões de gênero, domesticidade e patrimônio numa perspectiva de comparação com outros países, como é o caso da França, da Argentina e do México.

Como surgiu a ideia de transformar essas pesquisas em um livro?

FBN: Originalmente, a pesquisa correspondia à minha tese de livre-docência e não estava desenhada como um livro. Eu fui e voltei muitas vezes na estrutura. A pesquisa era sobre vários temas com base em quatro itens: gênero, domesticidade, a atuação dos moradores e a perspectiva internacional. O sumário e a articulação entre essas ideias ainda não estavam desenhados. A partir do momento em que estruturei o trabalho, e depois quando defendi a tese, me pareceu que esse material tratava das questões do cotidiano e da moradia de acordo com pontos de que não tínhamos tratado em nenhuma das pesquisas, e que renderia uma proposta de publicação. Então, o material foi adaptado e eu o submeti à Edusp. Tanto o tratamento das imagens e o levantamento de campo quanto a produção de mapas e diagramas precisaram ser reelaborados e elaborados para a montagem do livro.

Como você definiu os quatro tópicos que orientaram a pesquisa?

FBN: Antes havia um senso comum na historiografia brasileira segundo o qual o Brasil não teria enfrentado o problema da habitação social moderna. A proposta de habitação foi pensada e realizada, mas não atingiu a escala necessária para resolver o problema da crise habitacional; busquei me aprofundar nessas questões. Uma delas é: como era a configuração interna e quais são esses modelos de moradia? Por exemplo, como se daria, no Brasil, a ideia da casa mínima, presente na discussão da arquitetura moderna? Vendo as plantas dos apartamentos dos conjuntos habitacionais surgidos no primeiro movimento de verticalização brasileiro, eu intuía que havia ali uma divisão tripartite, comum nas casas brasileiras hoje: a área social da sala, a área íntima e a área de serviços. Ao analisar as plantas, percebemos que muitas seguem modelos europeus, com cozinha na entrada e um corredor de acesso à sala no fundo, por exemplo. Mas isso logo se adapta a uma ideia de distinção social e divisão interna da sociabilidade. Essa foi uma novidade da pesquisa: analisar como essas plantas se configuram e o que elas dizem sobre os processos de moradia social brasileiros promovidos pelo Estado. Essas perguntas vieram da ausência de interesse sobre a vida doméstica e a domesticidade, que eram assuntos que me interessavam. Parecia muito claro que as mulheres tiveram protagonismo na habitação social, porque são detentoras dos saberes da casa. E aí há um debate muito interessante: se elas têm que ficar na casa e são as detentoras desses saberes, isso é uma oportunidade profissional para elas? A mulher que vai morar nesses conjuntos é operária e também dona de casa, e no Brasil a tecnologia doméstica não chega para essas trabalhadoras. Na questão patrimonial, que considero estruturante para pensar políticas de preservação no Brasil, abordamos o patrimônio como um direito. A habitação social é um grande tema porque confronta os padrões de patrimônio. Como podemos pensar num patrimônio popular por meio da habitação? Isso tensiona muito uma ideia de patrimônio que é sempre monumental, ligada à nacionalidade e ao belo, algo que a habitação questiona. Essas eram perguntas sobre a habitação que, para mim, precisavam ser respondidas. E por isso construíram a proposta do livro.

Que efeitos as políticas habitacionais tiveram na dinâmica da família e, mais especificamente, da mulher?

FBN: A questão do espaço doméstico na habitação popular é central, porque a ideia do operário como portador de direitos e inserido num sistema de produção capitalista desde o século XIX vem associada a um conceito de família. Os funcionários inscritos precisavam vir com uma família para poderem ganhar o apartamento. São vários tipos de apartamento, mas todos são familiares. Nesse contexto, a mulher tem um papel importante na família, mas não está necessariamente atrelada ao lugar doméstico. Ela cuida da casa, mas também trabalha fora. Os arquitetos ensaiaram uma série de experimentações com o espaço doméstico e a organização da casa até chegar a um modelo comum. Esta é uma parte totalmente inédita da pesquisa: o processo de analisar as plantas desses apartamentos. Também fizemos um esforço para entender quem são as mulheres no Brasil que vão construir essa política de habitação. No Brasil, Carmen Portinho assume o protagonismo para tratar dos saberes da casa e das questões que a casa do operário tem que considerar, incluindo facilidades para a mulher operária, como a lavanderia e certos equipamentos, ainda que no Brasil estes fiquem aquém no sentido da automação. As mulheres têm um papel na organização da casa operária, mas também fora dela, um papel intelectual de promoção da habitação. Ao mesmo tempo, elas não são autoras de conjuntos habitacionais como arquitetas, embora o Brasil já tivesse muitas arquitetas formadas. E aí vêm as desigualdades de gênero na profissão. Então, quando pensamos no patrimônio como proteção desses lugares, há também uma dimensão que nos leva a pensá-los como lugares de memória das mulheres.

Como podemos descrever a atuação de Lygia Fernandes e Carmen Portinho referente à habitação social?

FBN: Carmen é um pouco mais conhecida hoje, porque viveu uma vida longa e atuou em muitas áreas, mas no próprio Departamento de Habitação ela não era tão conhecida. O que fiz nessa pesquisa foi colocá-la numa perspectiva internacional, reinseri-la em um fenômeno feminino da história da arquitetura moderna, em que as mulheres discutem moradia social. Carmen conhece as produções internacionais, ela vai para a Inglaterra, faz essas ideias circularem e tem um protagonismo intelectual e concreto na produção dos conjuntos habitacionais. E Lygia Fernandes, que trabalhou com ela no departamento, era uma arquiteta que atuou em Alagoas, seu estado natal, embora tenha sido funcionária pública no Rio de Janeiro. Eu quis olhar para a atuação delas na habitação e discutir como aparecem as questões de gênero dessas mulheres intelectuais, notando que elas estavam acompanhadas das assistentes sociais, representantes de uma profissão que se constitui entre os anos 1930 e 1940. Elas serão as grandes especialistas em moradia social, porque vão visitar as favelas e estar nesses projetos dando consultoria. E estarão tanto nos institutos de aposentadoria quanto no Departamento de Habitação Popular, como detentoras dos saberes da casa. Então, olhei para essas duas personagens procurando entender que as mulheres são parte de uma história da habitação e verificando onde elas estão internamente, no Brasil: dentro de casa, mas se relacionando com outras profissões femininas. Ou seja, há mulheres nesse campo, mas não mulheres arquitetas projetistas.

Como foram as entrevistas com os moradores dos conjuntos residenciais?

FBN: Fiz uma seleção dos conjuntos mais conhecidos em São Paulo: o IAPB (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários), na Vila Mariana, e os IAPIs (Institutos de Aposentadoria e Pensões dos Industriários) da Mooca e da Várzea do Carmo. Incluí também o Conjunto Vila Guiomar de Santo André, pois é um caso muito emblemático. Eu queria muito ter contato com esses moradores e fazer um projeto de história oral. História oral não é uma coleção de entrevistas, mas sim uma metodologia da história segundo a qual fazemos a entrevista e a usamos como uma fonte que precisa ser compreendida e interpretada à luz das informações históricas e de fontes complementares. Então, fundamentei esse processo na ideia de que a história da arquitetura não acaba na construção. É muito comum que as pesquisas da arquitetura se baseiem no projeto, falem do arquiteto, da obra e da condição material, mas poucas abordam como é a vida útil desses lugares. A habitação é um território privilegiado para isso, porque é atravessado pelas vivências. Foram 55 entrevistas, que envolveram bolsistas de pesquisa e visitas aos conjuntos. Todo esse processo de aproximação levou muito tempo, entre conversas e retornos. Você constrói uma relação com as pessoas, pode entrar nesses apartamentos e ver como moram ali. Muitas vezes são apartamentos herdados dos pais. As pessoas que entrevistei eram crianças na época do surgimento dos conjuntos. Elas têm memórias infantis e hoje moram lá, então existe também toda essa reconfiguração urbana dos lugares. Também era possível conseguir informações, por exemplo, relacionadas com as moradias anteriores dessas pessoas e o importante papel de memória exercido pelas mulheres na família. Vimos a questão do patrimônio venal, em que a pessoa recebe o apartamento dos pais, um patrimônio afetivo e familiar, mas que vem junto da compreensão de que aqueles lugares são parte da história do Brasil. As entrevistas também proporcionaram informações sobre a chegada de bens materiais de consumo, como a geladeira, e sobre o agenciamento do espaço naqueles núcleos familiares. O processo de escuta foi muito importante para completar uma história da arquitetura com essas pessoas. A Constituição brasileira afirma que o patrimônio é aquilo que o Estado vai selecionar com a ajuda da sociedade. Levando-se em conta o processo de identidade e a valoração das próprias pessoas, como dizer o que é patrimônio sem saber o que as pessoas pensavam sobre esses lugares?

Como se comparam as experiências da habitação social no Brasil e nos outros países que você analisou?

FBN: Fiz levantamentos de campo e documentais no México e na Argentina. Na América Latina, são experiências comparáveis, no sentido de que são países que também promoveram habitação social a partir das décadas de 1930 e 1940 numa escala comparável à do Brasil, mas com questões arquitetônicas diferentes. No caso do México, há uma promoção municipal de habitação bem importante. Na Argentina, a arquitetura de grande impacto está menos presente, mas tem expressiva produção habitacional. Na França, fiz uma pesquisa de um ano, estudando a legislação francesa e fazendo visitas de campo. Visitei mais de cem conjuntos habitacionais na periferia francesa, que era uma periferia operária e hoje é habitada por imigrantes. Entrevistei pesquisadores e gestores no Ministério da Cultura e em órgãos municipais para tentar compreender uma ideia que é muito repetida no Brasil: a de que a Europa tem muito patrimônio. Acontece que a Europa tem muito patrimônio de um só tipo. E qual seria o lugar do patrimônio mais popular? Também consultei a documentação e os processos de tombamento franceses, que são de preservação legal. Então, foi muito interessante ver como os processos da França são parecidos com os do Brasil. Logo nos primeiros meses em que estava lá, tive contato com os apartamentos-testemunho, que são construídos por prefeituras ou gestores locais, compondo certa imagem de uma moradia popular. Legalmente, só grandes obras, como as de Le Corbusier, ou alguns conjuntos mais autorais da década de 1930 são protegidos. O resto está à deriva do ponto de vista legal do patrimônio. Em face da não proteção, ocorre com esses apartamentos-testemunho a musealização da moradia popular.

Como o campo da patrimonialização pode ampliar a discussão para incluir questões como a da memória, no caso dos conjuntos residenciais?

FBN: Esse é um desafio em construção, pensar em como ampliar e entender o patrimônio como um lugar de direitos, não sendo visto somente pelas perspectivas arquitetônicas, turísticas, da viabilidade econômica e dos negócios imobiliários. Não temos visto a ideia do patrimônio como direito nas políticas municipais e estaduais, no caso de São Paulo. A desigualdade da sociedade brasileira é imensa, e certamente atinge o patrimônio. A política do imaterial vem avançando muito, mas, quando se trata da arquitetura e das cidades, é muito difícil ampliá-la, porque acaba vigorando uma ideia de que o foco deve ser o mais bonito ou o mais importante. A habitação é muito interessante porque fica na fronteira; ela pode ser patrimônio? Pode, e muitas outras coisas podem também. Isso nos permite olhar para o patrimônio para além dos critérios estéticos e turísticos e ampliar o que podemos compreender como tal. Ainda que no município de São Paulo, por exemplo, alguns desses conjuntos tenham sido considerados patrimônio, como é o caso do conjunto da Mooca, isso ainda acontece no limite, de forma muito restrita. O tombamento do IAPI da Mooca foi aprovado no Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), apesar do voto contrário da própria presidente à época, mas a decisão tirou a área livre, que era justamente o objeto de conflito. Sem ela, toda a concepção urbanística fica de fora. Faltam processos de valoração e conversas com os moradores para refletir sobre o que fazer com esses lugares e como viabilizar sua permanência para gerações futuras. O próprio Conjunto Pedregulho, que é a capa do livro, elaborado pela Carmen, tem um processo de tombamento aberto desde 1984 no IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), ainda inconcluso. Por que o reconhecimento é importante? Porque, enquanto houver reconhecimento, a preservação poderá atingir aqueles objetos que fazem parte da nossa história. Esses conjuntos são testemunhos materiais da história do trabalho, da Era Vargas e do Brasil das leis trabalhistas. Essa é uma chave da organização política brasileira que está muito estremecida nesse momento. Esses conjuntos são uma representação dos espaços de moradia, testemunhos da história brasileira, e nos permitem pensar pela perspectiva dos trabalhadores e das trabalhadoras, aos quais o patrimônio raramente chega. Então me parece que a patrimonialização teria muito a ganhar. Enquanto o Estado brasileiro não age, as pessoas estão fazendo museus de favela, estão se colocando como parte das cidades brasileiras e mostrando que têm muita coisa para contar. Isso também oferece um exemplo contundente de por que é importante ampliar o escopo do que é considerado patrimônio.

 

 

 

 

 

 

 

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