A Festa do Livro e dos leitores
Um breve histórico do evento organizado pela Edusp anualmente e que chega a sua 28ª edição
Em Edusp
Por Divulgação
04/11/2026
De acordo com o historiador Laurence Hallewell, em seu clássico O Livro no Brasil, conhecer um país por meio de sua produção editorial é mais ou menos o mesmo que julgar uma pessoa por sua caligrafia. Apesar de serem aspectos diminutos do todo que constitui uma nação ou uma pessoa, a caligrafia e a produção editorial são também muito reveladoras, uma vez que a expressão, impressa por máquinas ou registrada por mãos humanas, é fundamental para determinar quem somos. Essa importância se estende também à produção científica, que depende da leitura para mover suas engrenagens: é por meio dos livros que pesquisadores acessam referências, aprofundam conhecimentos e estabelecem as bases para novas descobertas, sem as quais muitos avanços não seriam possíveis.
Talvez seja por isso que eventos como a Festa do Livro da USP sejam tão aguardados por seu público cativo: eles descortinam obras para quem estuda ou para quem busca lazer e precisa delas bem próximas, na cabeceira da cama ou na sala de aula. A Festa não apenas oferece descontos especiais durante alguns dias, mas também instiga a curiosidade do público, em geral universitário, que perambula pelos corredores do espaço e encontra tanto a famosa listinha de desejos como aquele livro que não esperava descobrir e que, surpreendentemente, está ali, aguardando uma chance de ser levado para casa e lido.
Por ser uma oportunidade única de trazer à luz títulos pouco visibilizados, muitas editoras aproveitam a estrutura do evento para expor uma parte pouco explorada de seu acervo, com títulos selecionados de seu fundo de catálogo. Isso é possível porque as editoras contribuem apenas com um valor determinado pelo rateio dos custos da montagem e podem escolher seus títulos sem levar em conta somente o critério comercial. Dessa forma, a Festa possibilita que editoras de diversos tamanhos participem: as pequenas, as médias e as grandes casas editoriais contam com a mesma estrutura – uma mesa forrada com tecido colorido e reforçada para aguentar quilos de papel. De acordo com a organização do evento, até 60% dos títulos de grandes casas editoriais presentes nos últimos anos não se encontravam disponíveis em outros pontos de venda presencial. Além disso, com a ampliação da participação das pequenas editoras, um dos grandes trunfos da Festa tem sido a sua ampla bibliodiversidade. Livros técnicos, acadêmicos, obras de referência, literatura de diversos gêneros e locais do mundo, não ficção, literatura infantil, HQs, mangás, catálogos de arte e muitos outros!
Se podemos falar em livros que encontram leitores distraídos em corredores lotados, também podemos falar de alunos, pesquisadores e professores que encontravam dificuldade para adquirir seus livros de interesse nos principais pontos de venda do país, especialmente no caso da produção das editoras universitárias de outras regiões. Pensando nisso é importante retomar as origens que fizeram da Festa do Livro um marco no calendário literário da cidade de São Paulo, atraindo um universo de leitores que extrapolou a própria universidade, em uma época em que a venda on-line de livros não contava com a força algorítmica das big techs ou marketplaces, como acontece hoje.
Uma Festa de três décadas
Em 2026, chegamos à 28ª edição da Festa. Realizada anualmente desde 1999, quando foi idealizada por Plinio Martins Filho, na época diretor-presidente da Edusp, ela surgiu como uma iniciativa de uma editora universitária, a Edusp, que enfrentava dificuldades de distribuição de seus títulos e que via nas editoras próximas questões semelhantes. Foi assim que surgiu a Festa, com a proposta inicial de vender livros para a comunidade universitária com o mesmo desconto de 50% oferecido a distribuidores e livreiros, praxe do mercado, conectando diretamente os livros aos seus potenciais leitores. Obras técnicas, dicionários, livros acadêmicos e pesquisas de ponta publicadas por casas editoriais do país chegaram em condições acessíveis aos alunos, pesquisadores, professores e funcionários da Universidade de São Paulo. Aos poucos, o evento se tornou conhecido em toda a cidade e até mesmo na região metropolitana.
A primeira edição foi limitada a dois dias de evento, 22 e 23 de novembro de 1999, em horário comercial, das 10 h às 19 h, atendendo sobretudo ao público estudantil da USP. Na época, contou com a participação de pouco mais de 26 editoras, reunidas no pátio do prédio da Geografia e História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). Já em sua primeira edição, o evento se mostrou um sucesso de público e, dali em diante, avançamos muitas páginas: ao longo dos anos, as editoras passaram a ser organizadas por segmentos e o evento se estendeu para três dias de duração, de terça-feira a quinta-feira, com horário ampliado: das 9 h às 21 h.
Com o aumento das editoras interessadas em participar e também dos leitores, a Festa mudou de endereço para poder abrigar os novos frequentadores. Assim, em sua 14ª edição, em 2012, o evento migrou para a Escola Politécnica, ocupando espaços em três edifícios, e lá permaneceu por três anos. Nesse período, o número de editoras, das mais diferentes áreas, chegou a 150, consolidando a importância do evento não apenas para os estudantes mas também para a comunidade do entorno da Cidade Universitária do Butantã.
Finalmente, em 2015, para que todas as editoras voltassem a se reunir em um único espaço, a Festa se mudou para a Travessa C da Cidade Universitária, onde completa, em 2026, onze anos de permanência. No endereço atual, uma via pública cercada de árvores, próxima à Raia Olímpica e ao Conjunto Residencial da USP, o evento conta com o apoio de outros órgãos da Universidade, como o Centro de Práticas Esportivas da USP (Cepeusp) e a Prefeitura do Campus Butantã. Nesse ponto central da Cidade Universitária, há farta oferta de transporte público: o local é próximo à estação de trem, ao metrô e é servido por diversas linhas de ônibus, além de ser beneficiado pela ciclovia do campus. Assim, o acesso à Festa foi facilitado para quem está na Cidade Universitária e também para quem a visita. No atual local, o evento atingiu o maior tamanho desde que foi criado, e já chegou a comportar, em uma única edição, 236 editoras, incluindo dezoito argentinas.
Estrutura, desafios e soluções
Com o crescimento do evento ao longo dos anos, a organização tem lidado com alguns desafios, que levaram a reforços na estrutura do entorno da tenda, bem como a melhorias na circulação interna. Corredores foram ampliados e aberturas laterais tiveram de ser projetadas para melhorar a ventilação do espaço, que também passou a contar com aparelhos de ar-condicionado potentes distribuídos por toda a sua extensão. A produção de leques com a localização das editoras mostrou-se acertada: por um lado, possibilita que o público encontre as editoras com mais facilidade e, por outro, contribui para seu conforto térmico.
Durante a pandemia de covid-19, o público, recluso, foi privado da interação com editores e livreiros em virtude do distanciamento social necessário para conter o avanço do vírus. Ao mesmo tempo, a demanda por livros cresceu e os eventos precisaram se adaptar ao comércio on-line. Segundo dados da Nielsen BookScan, o período registrou um aumento de cerca de 40% na venda de livros no país. Nesse contexto, no período mais grave, entre 2020 e 2021, foram realizadas duas edições da Festa do Livro no formato digital, em caráter excepcional. Com o apoio da equipe de tecnologia da informação da Edusp, foi desenvolvido no site da Festa um portal de vendas com os descontos aplicados, num universo que incluía cerca de 170 editoras de todo o país. Com o encerramento do período crítico da pandemia, a Festa pôde voltar a ser o que se propunha desde o princípio: um espaço de encontro vivo entre leitores e livros.
Atualmente, a grande tenda da Festa possui aproximadamente 300 metros de extensão por 15 metros de largura. O evento mobiliza cerca de 1.100 profissionais: montadores da estrutura, paramédicos, bombeiros, controladores de acesso, equipe de limpeza, empresas de transporte e pessoal de atendimento ao público, como os representantes das editoras, livreiros e prestadores contratados exclusivamente para o evento.
Na área expositiva, de cerca de 4.500 m², as editoras são distribuídas de acordo com as proximidades temáticas e o tamanho de seu catálogo. São 495 bancadas, com os custos divididos proporcionalmente entre os participantes.
O espaço total do evento, incluindo o entorno, é de cerca de 6.000 m², nos quais os leitores encontram espaço para alimentação e descanso, o que permite que se preparem para mais uma visita aos corredores lotados e que compartilhem com amigos as suas últimas aquisições e dicas. A estrutura de apoio também conta com banheiros especialmente montados para o evento.
Ao todo, estima-se que em média 260 mil obras são disponibilizadas todos os anos para o público da Festa. Para facilitar a procura por títulos nas listagens das editoras, desde 2024 um sistema de busca integrada foi implementado no site do evento.
A preocupação com a diminuição do impacto ambiental de um evento dessa proporção fez com que a organização buscasse soluções para a correta destinação de resíduos. Por isso, em todas as edições, cooperativas se responsabilizam pela separação e destinação de materiais, na maioria reciclados.
Um dado importante e talvez menos conhecido do público é o compromisso assumido pelas editoras de doar livros para as bibliotecas da Universidade. A equipe de bibliotecários da FFLCH-USP seleciona os títulos de interesse do catálogo de cada participante e coordena a distribuição entre as bibliotecas da USP. No caso de livros infantis e infantojuvenis, a destinatária é a Biblioteca Celso de Rui Beisiegel, da Faculdade de Educação, que decide quais irão para a Escola de Aplicação da Feusp e quais irão para seu acervo principal. O compromisso das editoras é doar pelo menos cinco títulos por bancada utilizada.
Artes gráficas
A criação dos cartazes de divulgação da Festa do Livro da USP sempre contou com especial cuidado. Ao longo dos anos, vários artistas e designers contribuíram com seus trabalhos para a comunicação. Mais recentemente, os impressos foram substituídos por artes digitais, considerando que a divulgação passou a ser feita majoritariamente nas redes sociais. O leque impresso também se tornou uma importante peça gráfica; além de auxiliar na localização das editoras, foi transformado em artigo colecionável pelos frequentadores.
Diversos designers participaram do desenvolvimento de peças gráficas, entre eles: Marcelo Cipis (1ª Festa); Guto Lacaz (2ª Festa); Cafiero (3ª Festa); Feres Khoury, com design de Tomás Martins e lettering de Marcelo Masuchi Neto (6ª Festa); Henrique Xavier, sobre obra de Joan Brossa (7ª Festa); Hélio Cabral, com design de Cinzia de Araújo e Fernando Bizarri (8ª Festa); Gustavo Piqueira, da Casa Rex (9ª, 12ª, 14ª a 17ª Festa); Carolina Sucheuski, responsável pela criação da identidade visual desde a 18ª edição.




28ª Festa do Livro da USP
Entre os dias 25 e 29 de novembro acontecerá a 28ª edição da Festa do Livro da USP. O evento manterá os horários dos últimos anos: durante a semana, de quarta-feira a sexta-feira, a tenda estará aberta das 9 h às 21 h. No sábado e no domingo, das 9 h às 19 h.
Nesta edição estarão reunidas cerca de 245 editoras, o maior número já registrado. A relação pode ser consultada no site do evento.
A Festa é uma oportunidade ímpar de conhecer novas editoras; nesta edição, teremos dezesseis estreantes, de segmentos e tamanhos variados: Arquipélago, Atheneu, Cosac, Dandara, Diadorim, Ercolano, Grupo Pedrazul, Instituto Tomie Ohtake, Joaquina, MASP, Neomarginal, Pinard, Poptopia, Tábula, UK’A e Zain. Neste ano também estarão de volta editoras como Brasiliense, Eduneb, PUCPRESS e Zarabatana.
A Festa do Livro da USP consolidou-se como um evento que transcende o aspecto comercial: tornou-se um espaço de encontro entre editoras e leitores, promovendo a bibliodiversidade e ampliando o acesso à produção editorial brasileira. Em um cenário de transformações digitais e nos hábitos de leitura, sua permanência reafirma a importância do objeto-livro como instrumento de formação, descoberta e circulação de ideias. Afinal, cada edição renova a oportunidade de aproximar obras de leitores, mantendo viva a curiosidade que faz de cada visita à Festa uma celebração da cultura escrita. E, como sempre, a Festa estará aberta a todos!