O elo entre gosto e sociologia nas maneiras de morar
Carolina Pulici elabora a conexão indissociável entre as definições de bom gosto, a luta de classes e as relações internacionais
Em Edusp
Por Divulgação
31/03/2026
No livro “As Boas Maneiras de Morar: Repertórios Prescritivos Franceses e Brasileiros no Século XXI”, a professora e socióloga Carolina Pulici investiga questões profundas inerentes à formação do que se conhece como bom gosto, pelo ponto de vista das ciências sociais.
Nesta entrevista concedida à Edusp, Pulici aborda as relações de troca, exportação e importação de cultura entre os chamados países periféricos e dominantes, explicando como essas relações hierárquicas afetam o senso estético nacional.
A autora mostra como os movimentos do gosto oscilam de acordo com os movimentos sociais, destacando a importância histórica do modernismo para o Brasil e o eterno cabo de guerra entre público leigo e especialistas na criação de um estilo de morar. Também é salientado o fato de que essa luta de classes é inevitavelmente refletida na constituição do lar.
Seu novo livro parece dar continuidade ao tema das lógicas sociais do gosto, sobre o qual você já escreveu. O que a motivou a realizar uma comparação entre Brasil e França no que concerne aos modos de morar?
Carolina Pulici: De fato esse livro é uma continuidade da minha tese de doutorado, na qual estudei o gosto e o estilo de vida das elites tradicionais de São Paulo. Naquele momento, eu ainda não estava focada na arquitetura, na decoração, na casa, e sim em verificar se existia uma correlação entre o que as pessoas apreciavam em matéria de cinema, por exemplo, e o que apreciavam em matéria de arquitetura. Eu analisava essas práticas culturais não pela óptica dos artistas, dos arquitetos, mas pela óptica da sociologia, ou seja, das lógicas sociais que presidem as escolhas culturais. Existem fatores objetivos e condições escolares, econômicas e sociais que condicionam a formação do gosto, não é algo natural nem apenas estético. Quando terminei a minha tese, pensei que precisava focar algum desses domínios para então poder olhar não só para o público, mas para quem está formando o gosto – todos esses intermediários culturais que fazem a ponte entre o que é produzido, a oferta cultural, a demanda e o que é consumido. A pesquisa me remeteu imediatamente à França e à Itália. Até hoje são os dois países dos quais tudo que diz respeito ao bom gosto, ao que é elegante, é exportado para o resto do mundo. Decidi, então, que, se existia esse referencial franco-europeu, eu precisava entender o que eles consideram como bom gosto residencial. Depois de virar professora, em 2012, comecei a conceber essa pesquisa e, claro, não poderia apenas comparar. Uma coisa é comparar o que o Brasil acha que é o “bem-morar” com o que a Argentina acha, mas, quando comparo o Brasil com a França, são dois países muito desigualmente posicionados nas relações de força internacionais. Um país que sempre ocupou uma posição periférica com um que sempre exportou o seu modo de viver. Historicamente, o país em condição de fraqueza tende a importar muito mais do que exportar os seus modelos culturais e o país em posição de força tende a exportar muito mais do que ele importa. Por isso, a partir do momento em que comecei a comparar os dois, um dos objetivos da pesquisa passou a ser verificar a atualidade dessa relação histórica de tipo centro-periferia.
No livro, você reconhece uma movimentação em direção ao neoclássico; agora, há um redirecionamento para a arquitetura moderna. O que mudou na percepção dos moradores dessa elite ou mesmo dos arquitetos aqui no Brasil para provocar essa volta ao modernismo?
CP: Quando fiz a pesquisa empírica, visitando as feiras e mostras dedicadas à casa, conversei com arquitetos, a imprensa de arquitetura e decoração, editores, escolas que formam os arquitetos, entre outros. A primeira coisa que salta aos olhos é o quanto aqui no Brasil o modernismo reina sozinho, enquanto na França e na Itália o passado, o patrimônio e a arquitetura histórica têm um peso muito importante. Mas o modernismo não é predominante no Brasil em todo o campo. Nos dois países você tem essa disputa entre o que existe de fato e aquilo que pensam os críticos, essa parcela que critica o neoclássico e é muito mais tolerante com o moderno. Quando saímos não vemos tantos prédios modernistas porque a parcela que domina essas instâncias de consagração cultural do campo – os prêmios, a crítica, as mostras, os livros de arquitetura –, embora acabe aparecendo mais, não é necessariamente mais presente na realidade. Aqui, o modernismo tem um peso maior por estar associado a uma das únicas vezes em que o Brasil conseguiu ser valorizado pelos países centrais. Com o fim da guerra, esses países estão se reconstruindo com base nos modelos ecléticos historicistas acadêmicos. De repente, saem dois números inteiramente sobre o Brasil na revista mais importante da época, que chamava “L’Architecture d’Aujourd’hui” (“A Arquitetura de Hoje”). Quando eles veem a Pampulha, as coisas do Niemeyer, quando veem o nosso modernismo, eles interrompem as obras e começam a imitar. Isto é muito forte para um país periférico: ser imitado por um país com quem teve uma relação de dependência cultural.
O livro se debruça sobre revistas especializadas, feiras de decoração como a CASACOR e entrevistas com jornalistas e arquitetos. Por que você elegeu esses atores como objetos de estudo e qual o papel específico desses elementos na construção do bom gosto?
CP: No doutorado, eu tinha ficado com o ponto de vista dos moradores, das pessoas leigas. Hoje isso mudou um pouco, mas, lá no começo dos anos 2000, me chamou a atenção o fato de que no Jardim América, onde eu esperava encontrar só casas modernas, havia muitas casas históricas, historicistas, pitorescas. E os moradores falavam coisas como: “Olha, eu até tinha uma casa moderna que construí, mas demoli e construí uma casa inglesa”. Existem muitas reclamações em relação ao moderno entre o público leigo. Então entrevistei uma família de arquitetos, e todo mundo era muito crítico. Aquele monte de vidro às seis da manhã, aquela claridade. De um lado, temos a história da arquitetura, que vai estudar a produção dos imóveis residenciais, os arquitetos e os engenheiros. De outro lado, temos as ciências sociais, a sociologia e a antropologia, que vão estudar os moradores e os habitantes. Eu queria estudar as instâncias intermediárias entre a oferta e a demanda, ou seja, aqueles que fazem a ponte entre quem está produzindo e quem está consumindo, inclusive porque os intermediários culturais estão muito em alta agora. Na sociologia do gosto, na sociologia da cultura, estamos dando muita atenção para quem faz essa intermediação. De um lado, temos os arquitetos, que têm o gosto deles e não estão muito preocupados com o gosto dos outros. De outro, os habitantes, que também não querem saber do gosto dos outros, eles querem conforto. Então, como é que ficam os que estão no meio? E os que estão no meio são justamente essas feiras, os salões, as mostras, as revistas, os editores, as escolas que formam esses profissionais e que vão difundir as tendências da moda. Eu queria estudar justamente esses intermediários que, de alguma maneira, tentam tornar todas essas informações mais palatáveis para o público. Decidi não estudar revistas técnicas de arquitetura, porque elas só se dirigem aos profissionais da área, sem explicar o que acontece na sociedade. É aí que está a diferença entre uma pesquisa feita por uma socióloga da cultura e uma realizada por um arquiteto. Eu não tinha interesse em saber o que os arquitetos estão falando entre eles, mas, sim, em descobrir o que chega ao público, à sociedade, aos formadores do gosto que vão conseguir transmitir essas ideias.
Para além dos especialistas e das elites, como você vê a penetração desse discurso prescritivo no cotidiano da classe média alta? Trata-se apenas de consumo ou existe uma busca por aceitação ou distinção social?
CP: Como socióloga, considero que as coisas nunca se resumem a meras disputas estéticas. São sempre lutas ideológicas e culturais. Por exemplo, os arquitetos querem que a gente acredite que o fim do neoclássico teve a ver apenas com uma deturpação estética. Mas, quando você examina o que ocorreu, verifica que não é apenas uma questão técnica e estética. Nota-se um cansaço, a periferia aderindo ao neoclássico. Ou seja, o esgotamento desse padrão estético também se deveu às estratégias de distinção vigentes nas relações de classe, porque, quando uma parcela que não pertence às elites consegue acessar certa modalidade desse gosto residencial, os bairros de elite a abandonam e vão para o neocontemporâneo. E isso não acaba. É por isso que a sociologia do gosto não fica apenas nas apreciações estéticas; inserimos as produções culturais nos movimentos sociais, nas lutas que estruturam a vida em sociedade. Eu termino o livro mostrando uma publicidade de Santana que afirma que o charme europeu está chegando à zona norte de São Paulo. No momento em que essa estética chega à zona norte, a zona oeste para de segui-la. Não acredito que a gente possa pensar nisso de maneira desconectada em relação a essas lutas. Os movimentos do gosto estão sempre assentados nos movimentos da vida social.
A globalização e o acesso à informação digital alteraram essa relação de dependência entre Brasil e França? O Brasil ainda olha para a França como um modelo ou há um fluxo mais complexo de referências hoje?
CP: Com certeza hoje em dia é algo mais complexo. Os vínculos de dependência cultural foram reconfigurados justamente porque a gente tem essa velocidade da informação. O que percebo é que, tendo estudado um período como o século XXI – que ao mesmo tempo inclui o boom da internet e o boom das revistas especializadas, das feiras, das mostras (não só a CASACOR, mas também Morar Mais, Modernos Eternos…) –, vemos o consumidor sendo bombardeado por várias referências. Ainda assim, quando analisamos e quantificamos os dados, percebemos que os países mais comentados permanecem mais ou menos os mesmos. França em primeiro lugar, Itália em segundo. Já os países periféricos estão sempre no final da lista. Então se verifica, por exemplo, que a “Folha de S.Paulo” fez duas coleções dedicadas ao design de interiores e ao espaço residencial já no século XXI. Uma delas fala de estilo moderno, antigo, rural, mas com um único estilo nacionalizado. Qual é esse estilo? O provençal. A outra traz dois estilos nacionalizados: provençal e toscano. França e Itália de novo. Por que nós não temos moçambicanos? Por que não temos o paraguaio? Mesmo com a maior circulação das informações, a gente continua seguindo essa lógica, tanto que, quando quantifico os países que são considerados árbitros do bom gosto, tanto por lá quanto por aqui, o resultado é mais ou menos a mesma lista. Isto é outra coisa que define os países centrais e periféricos: as periferias se ignoram mutuamente e estão sempre mirando o centro. E assim também acontece com a decoração. Nós nem mesmo aparecemos no mundo da decoração, mas, quando vamos para o mundo da arquitetura, o Brasil aparece. O Brasil é o país periférico mais bem posicionado em uma lista de cinquenta países que organizei; está em quarto lugar. E por quê? Por conta do modernismo, por conta do Niemeyer. Isso aconteceu há muito tempo, temos um século de movimento modernista. Por isso a gente não sai desse passadismo modernista, porque ainda é com isso que somos reconhecidos lá fora. E, quando falo lá fora, isso significa nos países dominantes. Há uma reconfiguração, porque não se trata mais de um mero transplante, como acontecia no momento estudado por professores de arquitetura da USP como Carlos Lemos e Nestor Goulart Reis Filho. Ali realmente existia um transplante, tudo era trazido de fora, em uma tentativa de réplica. Por isso eles recorrem ao Gilberto Freyre de “Sobrados e Mucambos”, que fala do europeísmo, e usam o conceito segundo o qual o que não tiver a marca do europeísmo não terá prestígio neste país. Não é mais assim. Hoje em dia, as coisas estão reconfiguradas, mas ainda conseguimos ver a atualidade desses vínculos de dependência cultural.
Uma das conclusões que podemos extrair do livro é que a casa é também um espaço de reprodução de desigualdades. Hoje se fala muito de liberdade de opção do morador, mas essa liberdade não seria uma nova forma de hierarquia, ou seja, só é livre quem domina as regras do bom gosto a ponto de poder subvertê-las?
CP: Essa última frase me faz pensar em como, na França, eles consideram que as revistas dedicadas à casa são a forma atual dos manuais de etiqueta do Antigo Regime, ensinando aqueles que já não tem o gosto de família, o gosto nato e herdado, a se comportar. Por isso eles falam que a decoração deles é mais livre, mais solta e mais democrática. Mas, para além disso, o preço da mão de obra doméstica por lá ficou muito mais caro. Há uma escassez de mão de obra doméstica, e, quando as pessoas têm que fazer tudo por conta própria, a casa já não fica tão arrumada e perfeita. Essa é outra discussão. Como estamos vivendo um período de crítica às hierarquias culturais históricas, há principalmente no Brasil essa retórica de que hoje tudo pode. É o gosto democrático, a casa do seu jeito, do jeito que você quer. Porém, quando se faz uma análise de conteúdo dessas normas, desses formadores do gosto, eis que há certo sentido perverso, porque a gente vê que essa retórica também permite honrar as pressões democratizantes da contemporaneidade, ou seja, angariar o prestígio do progressismo social. Contudo, vemos que cada vez mais, conforme o século XXI avança, as casas mostradas vão ficando proibitivas, cada vez mais se tornam casas de exceção, ou seja, se predominar a retórica de que é o espaço da individualidade, de que é o gosto democrático que tudo pode, cada um tem o seu, isso, na realidade, vai ocultar uma reorientação da economia em relação aos ricos. Então, são prescritos ambientes domésticos cada vez mais proibitivos, cada vez mais condizentes com a reorientação da economia em direção aos ricos, mas, ao mesmo tempo, valendo-se dos benefícios do progressismo social, dizendo que isso é democrático e que cada um tem o seu gosto, porque estão incluídos o gosto despretensioso, a casa simples. No fundo, muitas vezes ela é bem mais cara. Esse neomodernismo – ter tudo de madeira, com os veios aparecendo, tudo de concreto aparente, como é indicado – requer uma mão de obra muito mais sofisticada.
Como se resolve essa contradição envolvendo o gosto e a configuração habitacional e geográfica brasileira?
CP: A pesquisa não focalizou essa dimensão urbana e essas contradições tão atrozes que constituem a nossa realidade, porque eu tinha em vista justamente desenvolver a sociologia do gosto residencial, o que também pode ser feito incluindo as pessoas que estão completamente excluídas do mínimo. Em intervenções como, por exemplo, as feitas por alunos da FAUUSP nas comunidades, nas favelas, percebe-se que os moradores de lá são os que menos gostam do moderno. Quando se fala sobre um chão de cimento queimado, para eles isso é um horror, porque passaram a vida toda em chão de terra batida; eles querem piso, querem porcelanato. Já entre nós, o cimento queimado é visto como descolado. Mesmo em obras residenciais existem muitas discussões sobre gosto, eles também têm uma apreciação estética. O problema são as desigualdades. O fato de o básico ainda estar tão longe de ser garantido leva as pessoas a acharem que o gosto é uma coisa só da elite, que pode se dar ao luxo de escolher. Mesmo diante dessa privação extrema, existem critérios de apreciação estética, que não são os mesmos dos nossos arquitetos. O povo é quem menos quer uma arquitetura modernista. Quem não gosta de luxo é o intelectual, porque o povo adora. A elite econômica tem um gosto muito mais próximo do gosto do povo do que a elite cultural. Essa é outra contradição a resolver.