A atuação dos “intelectuais midiáticos” no cenário político-cultural brasileiro

“Mercado de Opinião Política” apresenta visões de mundo em disputa na fronteira entre a universidade e o jornalismo

Em Edusp

Por Divulgação

30/01/2026

Em entrevista à Edusp, Allana Meirelles Vieira – professora de sociologia do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) – discorre sobre as disputas políticas e culturais que culminaram na ascensão da extrema direita no Brasil na última década, compondo o pano de fundo de seu livro “Mercado de Opinião Política”.

A obra examina a produção e circulação de visões sobre a sociedade difundidas por intelectuais, jornalistas mainstream, blogueiros, polemistas e militantes, situados tanto à direita quanto à esquerda do espectro político. Trata-se de uma zona fronteiriça entre a universidade, o jornalismo, o mercado editorial, a economia e a política, chamada no livro de “mercado de opinião”.

Como definir o conceito de “mercado de opinião” e como ele é utilizado no livro?

Allana Meirelles Vieira: “Mercado de opinião” pode ser entendido como o espaço de produção, reprodução e circulação de opiniões e visões sobre o mundo social, cujas fronteiras estão constantemente em disputa entre universos como a universidade, o jornalismo, o mercado editorial, a produção cultural e de entretenimento, a política e a economia. A noção dialoga com o referencial teórico-metodológico de Pierre Bourdieu, buscando compreender as disputas materiais e simbólicas que caracterizam a circulação de visões na mídia. “Mercado de opinião” se distingue, nesse sentido, da noção de “debate público” – ou mesmo “esfera pública” – reproduzida acriticamente por participantes desse espaço e mesmo por seus analistas. Com uma dimensão fortemente idealizada e sendo uma derivação corrompida da análise histórica empreendida por Jürgen Habermas, a ideia de “debate público” acaba por ocultar o jogo – ainda que inconsciente ou semiconsciente – de disputas por legitimidade e posições sociais que caracteriza a produção e a circulação de opiniões, servindo muitas vezes aos próprios agentes na construção da legitimidade de seus investimentos midiáticos. “Mercado de opinião”, assim, parece-me uma forma de caracterizar o espaço destituída dessa idealização e distanciada de uma análise essencializada da formação de opinião.

Qual é o papel desempenhado nesse mercado de opinião pelas figuras do “intelectual público” e do “intelectual midiático”?

AMV: Por um lado, a figura do intelectual ficou marcada historicamente por sua participação nas discussões públicas, com presença na imprensa e nos debates, associando-se assim à noção de “intelectual público”; por outro, antes mesmo da internet, os investimentos e as adaptações desses agentes às lógicas da televisão, por exemplo, levaram à ideia do “intelectual midiático” – nesse caso, menos nobre do que a do “intelectual público”. Aliás, eu acabo não utilizando essas categorias para designar os agentes, exatamente porque minha proposta foi analisar como o próprio emprego de tais expressões revelava lutas do mercado de opinião. Ou seja, se “intelectual público” é, em geral, adotado pelos próprios agentes para se autodefinirem ou por aqueles que o reconhecem como tal, “intelectual midiático” é o termo utilizado para a depreciação. Nesse sentido, interessou-me mais compreender quem é classificado de certas maneiras, por quem é classificado assim, qual a eficácia e quais as estratégias das classificações e qual o nível de proximidade entre a autoclassificação e a classificação dos pares. Mas é preciso dizer que tais disputas não são meros atos de comunicação ou controvérsias discursivas. Elas estão ligadas às lutas e distinções objetivas, às posições no espaço social, às propriedades com as quais os agentes entram nesse jogo e às mudanças estruturais e históricas do mercado de opinião. Assim, para além dos jogos de elogio e detração, é possível perceber cada vez mais a predominância de lógicas midiáticas e econômicas na dinâmica desse mercado de opinião. Isso se observa nos tempos mais acelerados e na imposição constante de produção de conteúdo, qualquer que seja; na dependência mais imediata em relação às audiências, aos seguidores e aos consumidores de livros; na instabilidade das posições; na predominância dos vínculos de colunistas e comentaristas com determinadas empresas, consultorias e think tanks; nas estratégias de marketing e autopromoção de parte dos agentes que produzem explicações sobre o mundo social; na fronteira por vezes tênue entre propaganda, jornalismo, colunismo e lobby.

Em sua obra, a senhora fala sobre diferentes posições no espaço. Poderia explicá-las?

AMV: O livro demonstra a divisão do trabalho intelectual na mídia. A expansão dos espaços de produção e circulação de opiniões, associada à diferenciação econômica e cultural desses agentes e de seus públicos, levou a um aprofundamento das distinções entre modalidades de prática intelectual na mídia. No recorte específico analisado no livro, identifiquei uma hierarquização do espaço em três níveis e seis polos: acadêmicos, experts, jornalistas mainstream, jornalistas blogueiros, militantes e polemistas. Esses polos estão em constante luta – mas também mantêm certas alianças – pela definição dos critérios que garantem a autoridade simbólica para possibilitar a circulação de opiniões sobre o mundo, produzir agendas de problemas e soluções para o país. Para exemplificar, podemos pensar: qual é o critério que um jornal ou um programa de TV estabelecem na escolha do convidado a opinar sobre determinado assunto ou a manter uma coluna de opinião? É a formação acadêmica ou determinada performance? A publicação de uma obra ou o fato de ter vivenciado certa experiência? São as ligações com a política e o poder econômico, o diálogo próximo com jornalistas ou a reação do público nas redes sociais? O que observei é que esses diferentes critérios operam em polos distintos do espaço, que ora se opõem, ora se alinham, mas que disputam as regras desse jogo, por meio de trunfos distintos e desiguais.

O livro aborda a crise política e a ascensão da extrema direita, marcadas pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela eleição de Jair Bolsonaro. Como tais fenômenos são tratados? Quais alianças foram observadas nesse processo?

AMV: Quando comecei essa pesquisa, há mais de dez anos, estava principalmente preocupada em compreender a ascensão da extrema direita no chamado “debate público”. Mas esse objetivo foi se modificando com o amadurecimento da pesquisa, de modo que ela se tornou um mapeamento da estrutura e da lógica desse mercado de opinião, constituído por agentes tanto mais à direita como mais à esquerda, tanto mais polêmicos como mais analíticos, e assim por diante. Portanto, o livro não é uma análise da conjuntura política, mas parte dessa conjuntura, dessa crise – no caso, o impeachment de Dilma e a eleição de Bolsonaro – do período de 2014 a 2018, para examinar o mercado de opinião. A crise política é adotada como um recurso metodológico, uma vez que nesses momentos os agentes são levados a tomar posição. Assim, observei que as oposições entre direita e esquerda, muitas vezes, são produtos discursivos que se relacionam a outros tipos de divisão, estabelecidos menos pelas crenças políticas e mais pelas propriedades e posições sociais que caracterizam os agentes – como diplomas, premiações, reconhecimento entre pares, trajetórias profissionais e acadêmicas, investimentos no mercado editorial, origens sociais etc. As alianças e oposições que eles costuram, portanto, não são apenas de ordem ideológica. De todo modo, o livro demonstra como, no período estudado, os discursos e as tomadas de posição à direita assim como essa própria autoidentificação foram se fortalecendo. Se houve um período em que os indivíduos estudados não se reconheciam dessa forma, a análise do conjunto de entrevistas e intervenções ao longo dos anos de 2000 e 2010 demonstrou uma crescente abertura para o reconhecimento como tal, uma disputa inclusive sobre qual seria a “verdadeira” ou a “legítima” direita, bem como uma ruptura constante dos limites do possível nos discursos publicados. Além disso, o livro mostra que, embora houvesse o conjunto mais histriônico da direita, ela só conseguiu se manter porque tinha alianças com figuras respeitadas, lidas como “moderadas”, que, com base em supostos argumentos racionais, números e análises, defenderam, mais ou menos explicitamente, a candidatura e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

Embora admita o impacto das redes sociais no debate público, a senhora rejeita o determinismo tecnológico que permeia muitas das discussões sobre as mudanças atuais. Qual seria, então, o papel dessas novas tecnologias nos processos de radicalização política nas sociedades contemporâneas, particularmente no Brasil?

AMV: É claro que as redes sociais tiveram um impacto grande na ascensão da extrema direita e na radicalização política. O poder que as “big techs” detêm desequilibra o jogo, e elas atuaram de forma profunda para a emergência de tais fenômenos. Mas penso que isso precisa ser analisado sociologicamente, com cuidado, método e pesquisa empírica, e que não é possível explicar os fenômenos apenas pela tecnologia, até porque estamos falando de um poder econômico e político assim como de desigualdades estruturais – por isso me oponho ao determinismo tecnológico. No caso do meu trabalho, muito do que observamos nessa radicalização, nesse chamado “discurso de ódio”, estava presente em programas de televisão e rádio ou mesmo na imprensa, por exemplo. As redes sociais ampliaram de forma exponencial tais discursos, mas é preciso olhar para sua genealogia, para as disposições que foram se constituindo ao longo do tempo e que se reconhecem nessa lógica. Não dá para compreender a atuação desses colunistas e comentaristas nas redes sem entender o que eles foram ou o que seus “mentores” foram (e ainda são) na imprensa, na televisão, no rádio, no mercado editorial. Muitos dos “influenciadores” da direita têm trajetórias nesses meios ditos “tradicionais” ou se tornaram “agentes do debate público” por intermédio deles. Há um tipo de performance, de persona, de figuração, de vocabulário e de posição que foi se construindo nas últimas décadas. Além disso, quando estudamos as trajetórias e as atuações desses agentes, observamos que eles não se sustentam apenas com seus investimentos nas redes, mas contam com a colaboração e a promoção de editoras, canais e programas de TV, jornais e revistas, empresas variadas. Há, aliás, uma profissionalização de tal prática e a necessidade de capital econômico para a atuação na internet. Ou seja, é preciso olhar para essas propriedades, investimentos e interdependências para compreender o impacto dessas novas tecnologias. Mais ainda, não dá para entender essas disputas sem olhar para o sistema educacional brasileiro, para a estratificação na formação básica e superior, para a formação desses colunistas e também dos seus públicos, para as distinções entre esses agentes e as condições de atuação no mercado de bens simbólicos de forma mais ampla.

A senhora afirma que as influências midiáticas e econômicas estão se fortalecendo na produção e na difusão das opiniões sobre o mundo social, político e econômico, gerando uma “colonização” da produção simbólica por lógicas externas. Poderia discorrer um pouco sobre esse tema?

AMV: Como disse antes, na pesquisa, observei uma diferenciação e uma divisão do trabalho intelectual na mídia. O processo de diferenciação do mundo social e divisão do trabalho é histórico, não é novo, mas há um aprofundamento desse processo. Nesse sentido, não é novidade que o espaço da produção intelectual ou o mercado de opinião sejam divididos por polos mais dependentes economicamente e outros com graus de autonomia maiores, ou seja, que não dependem da rentabilidade econômica mais imediata para existirem e atuarem. Tais polos atuam, contudo, na denegação do econômico, como Pierre Bourdieu demonstra em várias de suas pesquisas. Essa denegação não é cínica. Há uma crença dos agentes em relação a esse distanciamento. O que observei na minha pesquisa é que mesmo os polos relativamente mais autônomos desse mercado de opinião têm cada vez mais respondido e se adequado às demandas e lógicas mais econômicas, mesmo que elas não se revelem como tais. E, mais ainda, as lógicas mais descaradamente econômicas também vão se tornando mais difundidas. Então, vemos uma explosão de cursos sendo vendidos na internet, ações de marketing mais agressivas por parte das editoras e dos autores, grandes eventos com escritores e professores, autopropaganda, adoção de estratégias de retenção da atenção mais próximas ao universo do entretenimento, palestras e entrevistas com patrocínio de marcas de roupa, engajamento político misturado com publicidade, produção intensa de conteúdo nas redes sociais. Se, na ponta de lança, você tem esse tipo de investimento (que não se restringe a um só polo do espaço), entre agentes menos midiáticos, menos conhecidos pelo público geral, há outro tipo de interesse econômico operando, como, por exemplo, o vínculo de colunistas e comentaristas com agências de consultoria para o sistema financeiro e empresas de gestão de fortunas. O que me parece agravar esse cenário é vermos essa lógica econômica, mais ou menos agressiva, mais ou menos direta, entrando nos polos historicamente e relativamente mais autônomos do mercado, como a universidade pública. Ainda que os agentes sejam movidos pela crença de que suas atuações visam à disputa pelos espaços da internet contra a direita – e ainda que isso possa ter sua parcela de verdade –, entrar nesse jogo tem consequências mais amplas. Não é apenas um conteúdo que se difunde, mas também certa forma que se torna predominante. Vemos isso, por exemplo, quando se passa a ter uma pressão para professores universitários e pesquisadores se adequarem a essa lógica, por meio de ações como autopropaganda nas redes sociais, uso de estratégias de circulação nesse mercado de opinião, produção intensa de conteúdo. Essa pressão pode ser mais ou menos direta, mais ou menos intensa, a depender da universidade, do curso, da disposição dos professores, mas ela vem penetrando e ganhando força.

No seu livro, a senhora estabelece relações entre a crescente privatização do ensino superior e a oposição midiática à universidade pública, que se desdobra em um anti-intelectualismo, contestando a legitimidade dessa instituição. Poderia explicar mais detalhadamente essas relações?

AMV: Entre os colunistas e comentaristas mais diretamente associados à (extrema) direita é muito comum a detração constante de intelectuais, professores, escritores, jornalistas e artistas, assim como da universidade pública e seus cursos de humanas. Os textos e as intervenções desses colunistas e comentaristas vão construindo inimigos comuns, associando-os diretamente ao comunismo, ao petismo, ao bolivarianismo etc., a depender dos termos em alta do momento. As universidades públicas são associadas a baderna, centros de doutrinação marxista, desperdício do dinheiro público, mas essa oposição não está presente apenas entre os agentes que atuam nessa ponta de lança das batalhas. Também percebi que mesmo entre os nomes tidos como moderados, que não necessariamente se reconheciam nem se reconhecem como de direita (mas que nos momentos de crise tomaram posições mais próximas a ela), ainda que de formas mais sutis ou pretensamente mais embasadas, havia uma oposição constante à universidade pública e, sobretudo, aos cursos de humanas. Nesses casos, apareciam a ideia de ineficiência do caráter público, a defesa da privatização, o questionamento da relevância dos cursos de humanas e mesmo a suposta ideologização dos seus professores. Por outro lado, em certos polos de esquerda, também observei uma associação automática da universidade e seus intelectuais ao elitismo, conectada à justificativa de que a atuação midiática seria uma forma de democratização ou popularização do conhecimento. Nesse caso, é como se o trabalho acadêmico mais distanciado da mídia representasse um tipo de produção encastelada, uma espécie de “torre de marfim” (imagem que, aliás, me parece distante de qualquer tipo de produção intelectual atual), de modo que esse argumento é usado pelos agentes para justificar seus investimentos na hipermidiatização. Quando observamos as propriedades sociais desses agentes e polos, há uma tendência à correlação com trajetórias mais ligadas ao sistema privado de educação superior e/ou mais midiáticas, bem como um distanciamento nas trajetórias em relação à universidade pública (mesmo que por ela tenham passado em algum momento). As dificuldades e as decepções são, muitas vezes, atribuídas às experiências nos momentos de formação e/ou atuação nessas universidades. É interessante notar que todos os agentes estudados têm formação ou atuação nas ciências humanas: jornalismo, filosofia, ciências sociais, história, economia. Nesse sentido, a oposição à universidade e o anti-intelectualismo têm muito a ver com a busca por autolegitimação. Quando olhamos para a genealogia desse processo, é possível observar como essa posição do anti-intelectual, do detrator, ou melhor, do polemista, foi se sedimentando na imprensa brasileira ao longo de décadas e se radicalizando, diante da concorrência e da instabilidade dos trunfos que sustentam a legitimidade desses agentes no mercado de opinião. Também foram surgindo mais figuras com a disposição necessária para ocupar esse lugar. Por outro lado, há aqueles que jogam um jogo duplo, entre universo intelectual e sistema financeiro, operando mais profundamente nas propostas de privatização do ensino superior e também difundindo certos estereótipos.

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