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A PERSONAGEM DO LIVRO
Antonio Candido: o “sentimento de dialética”
Fábio de Souza Andrade

Quando se menciona o autor da Formação da Literatura Brasileira, tanto a clareza meridiana da trajetória intelectual, dedicada a temas decisivos à compreensão do Brasil, tais como o jogo entre o local e o cosmopolita no campo das idéias, entre a ordem e a desordem na vida nacional, quanto a convicção democrática e igualitária inflexíveis do militante convidam a uma adesão fascinada, completa. Admiração incondicional, totalmente rendida, talvez não faça justiça à obra do mestre, perpassada de lado a outro pelo que Paulo Eduardo Arantes batizou de “sentimento da dialética” – sensibilidade aguda às contradições atada ao empenho em organizá-las. Certamente desrespeita seu jeito pouco à vontade com o formalismo das demonstrações públicas de reverência. Mas é difícil fugir delas, quando parecem apenas reverberar testemunhos e impressões unânimes de gente muito diversa que cruzou seu caminho e não apenas de amigos, discípulos, leitores.

A simpatia humana e curiosidade intelectual do ensaísta remontam aos anos de infância mineira do filho, carioca, do médico Aristides de Mello e Souza. Devem muito à sociabilidade da província sofisticada, peculiar a cidades típicas da região da Mogiana, como Poços de Caldas e Cássia, em que as bibliotecas rivalizavam com os bailes.

Ter optado pelos estudos em São Paulo, nas primeiras turmas da recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras, foi determinante. Levou ao encontro simultâneo da sociologia e da literatura que, cindida entre o texto e a vida, permitiu a articulação das preocupações estéticas e políticas, teóricas e práticas. Da sociologia, permaneceu no estudioso de literatura um profundo respeito pelo objeto. A forma ensaística e um ecletismo teórico responsável (que deve muito à estilística, ao new criticism e a um marxismo longe do reducionismo) permitiram a Antonio Candido desenvolver um projeto crítico que desenovela o social a partir de uma análise imanente da obra de arte.

Método e opção pessoal, a primazia do objeto implicou num apreço maior pelo processo, em detrimento do pontual, pela apreensão da forma orgânica e viva contra a dissecação anatômica. Ela se espelha em procedimentos estilísticos incorporados à maneira de uma segunda natureza pelo ensaísta, como o ritmo de viagem ditado pelas digressões, o gosto pelas paráfrases interpretativas, as citações embaladas pelos torneios do próprio texto.

Nos anos de juventude, a aproximação dos modernistas paulistas, Mário de Andrade à frente, o contato com os professores da missão francesa fundadora da USP, o duplo compromisso com a teoria e a militância intelectual, culminaram na fundação da revista Clima, de cuja vida breve – dezesseis números dispersos em quatro anos em meio a uma guerra mundial e uma ditadura doméstica – se desprenderam algumas das maiores e mais influentes vocações críticas da cultura e das artes brasileiras no século 20.

O grupo reunia alunos promissores e depois professores fundamentais da jovem Universidade de São Paulo: além do próprio Antonio Candido, seus amigos e cúmplices, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Ruy Coelho e Gilda de Mello e Souza, sua futura esposa. Os frutos da revista não se restringiram aos círculos acadêmicos, onde seus criadores foram responsáveis pela formação de quadros e condições mínimas para uma pesquisa séria e sistemática nas humanidades, tendo se espraiado nas mais diversas frentes institucionais. Dela brotaram cineclubes, germe da Cinemateca Brasileira, a Escola de Arte Dramática, o Suplemento Literário d’O Estado de S. Paulo, que marcou época em fins dos anos 50, uma militância crítica na imprensa e as diretrizes iniciais do Museu de Arte Moderna (MAM).

Tanto quando definia, no calor da hora, a importância do escritor novo (nos rodapés que assinou na Folha da Manhã e no Diário de São Paulo, ou no Suplemento Literário), como quando exercia sua vocação comparatista ou reconstruía os conflitos essenciais por trás dos momentos decisivos da formação da literatura brasileira, Antonio Candido sempre teve em seu horizonte a intervenção na vida política e cultural do país. A militância no Partido Socialista Brasileiro reponta depois na participação destacada na fundação do Partido dos Trabalhadores, os protestos contra o obscurantismo ditatorial do Estado Novo ecoam na resistência ativa ao regime militar pós-64.

“É difícil encontrar um homem bom”, reza o título de um conto de Flannery O’Connor, escritora americana, sulista, cujo talento ficou eclipsado pela grandeza de seu contemporâneo, William Faulkner. Nem tanto, secundariam os que, nos últimos noventa anos, tiveram o privilégio da convivência, direta ou indireta, ocasional ou prolongada, com a obra e a pessoa de Antonio Candido.

Fábio de Souza Andrade é professor de Teoria Literária na Universidade de São Paulo, tradutor e colunista da Folha de S. Paulo, autor de O Engenheiro Noturno (Edusp, 1997) e Samuel Beckett: o Silêncio Possível (Edusp, 2001).


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