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RESENHA|MULTICLÁSSICOS
Amanhecer épico
Elias Thomé Saliba
Épicos – volume que marca milésimo título no catálogo da Edusp – inclui Prosopopéia, O Uraguai, Caramuru, Vila Rica, A Confederação dos Tamoios e I-Juca-Pirama inaugura a coleção “Multiclássicos”, organizada por Ivan Teixeira, e ilumina a tradição da poesia épica no Brasil.
 

Épicos – Coleção Multiclássicos – vol. 1
Organização e apresentação de Ivan Teixeira
Notas sobre o Gênero Épico por João Adolfo Hansen


Prosopopéia
Bento Teixeira
Ensaio introdutório de Marcello Moreira


O Uraguai
Basílio da Gama
Ensaio introdutório de Ivan Teixeira


Caramuru
Santa Rita Durão
Ensaio introdutório de Berty R. R. Biron


Vila Rica
Cláudio Manuel da Costa
Ensaio introdutório de Eliana Scotti Muzzi


A Confederação dos Tamoios
Gonçalves de Magalhães
Ensaio introdutório João Adalberto Campato Jr.


I-Juca-Pirama
Gonçalves Dias
Ensaio introdutório de Paulo Franchetti


Edusp/Imprensa Oficial – 1224 págs. – R$ 120


“Clássicos são aqueles livros que quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, mais se revelam novos, inesperados e inéditos, quando são lidos de fato.” A definição, fornecida por Italo Calvino, ocorre-nos depois da leitura de Épicos, que é o primeiro volume – organizado por Ivan Teixeira – e inaugura a coleção “Multiclássicos”, lançada pela Edusp (o segundo volume será Naturalistas).

Calvino ainda adverte que as tais revelações só ocorrem quando encontram o leitor certo. E acrescentaríamos: ...e também quando o leitor encontra os livros. O acréscimo parece banal, mas necessário, pois o acesso aos clássicos brasileiros, previstos na coleção, ainda é difícil: as poucas edições deixam a desejar, algumas só aparecem para cumprir tabela daquelas leituras obrigatórias nos vestibulares, mas sobretudo estão sempre isoladas, incentivando quase que compulsoriamente uma leitura mais vertical.

A edição de Prosopopéia, de Bento Teixeira, O Uraguai, de Basílio da Gama, Caramuru, de Santa Rita Durão, Vila Rica, de Cláudio Manuel da Costa, A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães, e I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, reunidos num só volume, com atualizadas apresentações e notas pertinentes, permite aquela leitura mais horizontal que acalma nossa natural ansiedade por uma visão comparativa deste momento crucial, que se estende de 1601 a 1856, e que corresponde, por assim dizer, ao amanhecer poético do país.

Mas é melhor não procurar pelo paradigma épico brasileiro, sobretudo numa cultura na qual a ética de fundo emotivo sempre vence a razão pública e onde não há regras que resistam à forte arrancada de uma imagem musical e rítmir ca. E isto mesmo se pensarmos num paradigma luso-brasileiro já que, exageros à parte, Capistrano tinha razão quando dizia que “o Brasil não passava de um Portugal ampliado e rarefeito”. Mas, mesmo naquela América portuguesa, seria possível o épico como afirmação de valores abertamente fundados na intensidade de uma emoção, despida de quaisquer laços com a realidade objetiva?

Outra razão mais forte para diminuição de expectativas é que o gênero épico virou um gênero morto – e, hoje, quaisquer formas de heroísmo prestam-se à irrisão ou tornamse duramente inverossímeis, sobretudo porque o dinheiro transformou-se no equivalente universal de todos os valores. Vale, entretanto, para os apreciadores do gênero, uma leitura arqueológica ou prospectiva, como o faz João Adolfo Hansen, no ensaio que abre o volume, reconstituindo brilhantemente os preceitos da doutrina épica vigentes na época de invenção dos poemas.

O bom é que, num único volume, o leitor também poderá exercer seu direito natural de livre leitura, começando por onde quiser, detendo-se em trechos favoritos, abandonando os que os desgostam, enfim, utilizando-se daquilo que a poesia tem de mais sublime, que é o dom de mexer e remexer em nossa forma de ver o mundo, começando por mudar as palavras através das quais o vemos. E as leituras alternativas, sugeridas ou indicadas pelos importantes ensaios que introduzem os poemas, se desdobram infinitamente.

O Uraguai, com sua estrutura híbrida, defendendo o absolutismo pombalino e, ao mesmo tempo, satirizando o domínio supostamente iníquo dos jesuítas sobre os índios, também pode ser lido – em paralelo a La Henriade, de Voltaire – como denúncia dos efeitos deletérios decorrentes do mau uso da religião. Embora a paixão de Diogo Álvares por Paraguaçu e o sacrifício amoroso de Moema – no célebre Caramuru – tenha se transmutado até em enredo de escola de samba, os estereótipos não resistem a uma filtragem da enorme violência contida no longo poema: e só conferir. Já o Vila Rica, de Cláudio Manuel da Costa, tantas vezes censurado e deformado desde sua publicação original por copistas e outras dezenas de adulterações, reaparece em edição integral.

Cenários hiperbolicamente artificiosos, cheios de europeus besuntados de urucum e indígenas usando tamanha profusão de metáforas, que, como dizia Agripino Grieco, bem que poderiam ensinar português em Portugal! Eis a tradição, não inteiramente injusta, mas bem próxima do ridículo, que cresceu ao redor da leitura de A Confederação dos Tamoios – poema que já nasceu, por assim dizer, com suscetível vocação para ser parodiado. Mas até mesmo para uma renovada e criativa leitura paródica não valeria a pena conhecê-lo integralmente?

Noutra chave, também vale a releitura do célebre I-Juca- Pirama, sobretudo, porque nos permite vislumbrar – como sugere o incisivo ensaio introdutório de Paulo Franchetti – o único elemento forte de história real contida no indianismo: a infalível certeza de extinção dos índios por conta da chegada do invasor branco.

Walter Benjamin relacionou a decadência da arte de contar histórias com o desaparecimento do lado épico da verdade. É certo que ele falava de outros épicos, de outros tempos e outros lugares. Seja como for, esta coletânea torna-se leitura imprescindível para responder ao que Ivan Teixeira designa como verdadeira “obsessão da literatura brasileira em compor a epopéia nacional”.

Mas os épicos brasileiros disparam para todos os lados: inauguram tanto aquela sintaxe silenciosa da imaginação nacional como também aquele desprezo cego pela realidade objetiva do país. Ou se engalanam de lantejoulas rimadas ou se perdem, exprimindo o drama de consciências sem projeto, mal resolvidas e hesitantes, privadas de quaisquer ações livres, dependendo de impulsos alheios, proibidas de futuro. Como sugeriu certa vez Mário de Andrade ao falar sobre o tema do exílio: os românticos queriam voltar ao berço edênico ou ao nada originário; os modernistas queriam partir, evadindo-se da vida presente em direção a uma Pasárgada sem retorno. Neste caso, os épicos também não queriam ficar, mas obrigam-se a isto, pelas próprias regras de composição do gênero que os impulsionam a cantar apenas feitos que realmente ocorreram. Mas se ninguém quer ficar e encarar de frente o drama da história, o que resta? Provavelmente resta apenas uma unidade obstinada de sentimento, uma ética que encurta distâncias sociais, uma afetividade que não precisa de qualificativos – um Brasil brasileiro.

Elias Thomé Saliba é professor do Departamento de História da USP e autor, entre outros livros, de Raízes do Riso (Companhia das Letras) e As Utopias Românticas (Estação Liberdade).



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